No bojo dos investimentos, não se pode esquecer que Mercedes-Benz e Volkswagen construíram no Brasil as fábricas mais modernas do mundo. Justamente por causa dessa massa de investimentos, se Frankfurt não vai ao Brasil, o Brasil tem que ir a Frankfurt. Para compensar a grande ociosidade das fábricas brasileiras, exportar é mais do que uma ordem — transformou-se em “religião”. A meca dos investimentos das montadoras, e não só das alemãs, agora é a China.
Renato Acciarto. Brasil perde para China preferência das montadoras. In: Gazeta Mercantil. 11/9/2003, p. A1 (com adaptações).
O texto acima expressa importantes processos em curso no mundo. Considerando esse texto, julgue os itens a seguir.
Mundializam-se os mercados, porém não os processos de produção, já que o desenvolvimento tecnológico é do domínio dos países mais industrializados.
Gabarito: ERRADO (E)
O item é falso porque afirma uma separação que não corresponde ao processo histórico recente da globalização econômica.
Onde está o erro
1) “Mundializam-se os mercados, porém não os processos de produção”
Isso é incorreto.
A globalização não atingiu apenas os mercados consumidores; ela também transformou profundamente os processos produtivos:
surgimento de cadeias globais de valor,
terceirização e offshoring,
multinacionais produzindo em diversos países,
divisão internacional da produção (componentes fabricados em diferentes regiões).
Portanto, a produção também se mundializou, não apenas o consumo.
2) “Desenvolvimento tecnológico é domínio exclusivo dos países industrializados”
Também é uma afirmação exagerada.
Países desenvolvidos mantêm liderança tecnológica em vários setores,
porém há difusão tecnológica e centros de inovação em países emergentes,
transferência de tecnologia, joint ventures e produção de alta tecnologia fora do eixo tradicional.
Não se pode afirmar exclusividade absoluta.
Lógica histórica
Desde o final do século XX:
fábricas se deslocaram para a Ásia, América Latina e Europa Oriental,
tecnologia passou a circular com mais rapidez,
empresas passaram a produzir globalmente, não apenas vender globalmente.
Síntese
O item erra ao dizer que só os mercados se globalizam e que a tecnologia permanece restrita aos países industrializados.
Na realidade, mercados e processos produtivos se internacionalizaram conjuntamente. Por isso, o gabarito é Errado (E).
Mundialização vs. Localização Tecnológica
Mundialização dos Mercados: O consumo é, de fato, globalizado. Um smartphone, um medicamento ou uma peça de vestuário podem ser vendidos em praticamente qualquer lugar do mundo. As barreiras comerciais diminuíram e os fluxos financeiros permitem que empresas alcancem consumidores em escala planetária.
A Localização dos Processos de Produção: Embora as fábricas (chão de fábrica) estejam espalhadas pelo globo (especialmente em países com mão de obra barata), o processo de produção no sentido intelectual e estratégico permanece concentrado. O design, a engenharia de ponta, a biotecnologia e o software são desenvolvidos em centros de inovação específicos.
Domínio Tecnológico: A propriedade intelectual (patentes) e o desenvolvimento de novas tecnologias são o “coração” do poder econômico. Este domínio permanece majoritariamente nas mãos dos países do Norte Global (EUA, União Europeia, Japão) e, mais recentemente, de polos específicos na Ásia (China e Coreia do Sul).
A Assimetria: O item sugere que, enquanto todos podem comprar (mercado mundializado), nem todos podem criar (produção tecnológica restrita). Isso cria uma dependência estrutural dos países periféricos em relação aos centros tecnológicos.
A Perspectiva de 2026: A Soberania Tecnológica
Em 2026, essa discussão é central para a política externa brasileira:
Semicondutores e IA: A crise de semicondutores e a corrida pela Inteligência Artificial em 2026 reforçam o item. Embora o mundo todo use IA, apenas um punhado de empresas e países domina a tecnologia de fabricação dos chips (como os de 2nm) e os grandes modelos de linguagem.
Complexidade Econômica: O Brasil de 2026 busca a “neoindustrialização” justamente para romper esse ciclo. O objetivo é deixar de ser apenas um mercado para produtos mundiais e passar a dominar etapas do processo de produção tecnológica, especialmente na economia verde e bioindústria.
Geopolítica da Tecnologia: Em 2026, o controle do desenvolvimento tecnológico é usado como arma diplomática (sanções tecnológicas). Quem não domina o processo de produção fica vulnerável às decisões políticas dos países detentores da tecnologia.
Dica de Ouro para o TPS:
Diferencie Globalização Comercial (vender para todos) de Globalização Produtiva/Tecnológica (quem detém o segredo do produto).
A teoria da Nova Divisão Internacional do Trabalho (NDIT) explica que os países desenvolvidos exportam tecnologia e capital, enquanto os países em desenvolvimento exportam produtos industrializados de baixa complexidade ou matérias-primas.
Por que o gabarito é ERRADO?
O erro está na negação da mundialização dos processos produtivos. Embora o domínio tecnológico ainda seja concentrado, a produção em si tornou-se profundamente globalizada:
Fragmentação Produtiva: Hoje, a produção de um único bem (como um Boeing ou um iPhone) é fatiada em centenas de etapas espalhadas por dezenas de países. Não se mundializam apenas os mercados (consumo), mas o próprio “fazer” (produção).
Cadeias Globais de Valor (CGV): As empresas transnacionais não apenas vendem globalmente; elas instalam unidades produtivas, centros de montagem e até laboratórios de desenvolvimento em diferentes nações para aproveitar vantagens locacionais (custo de mão de obra, proximidade de matérias-primas ou incentivos fiscais).
A Tecnologia como Fluxo: Embora os países mais industrializados ainda liderem a inovação, o processo produtivo tecnológico também se internacionalizou através de joint ventures, licenciamento de patentes e a ascensão de novas potências tecnológicas (como China, Índia e Coreia do Sul), que desafiam o monopólio exclusivo do Norte Global.
A Perspectiva de 2026: “Nearshoring” e Resiliência
Em 2026, o debate sobre a mundialização da produção ganhou novas camadas:
Regionalização vs. Mundialização: Após as crises logísticas dos últimos anos, o mundo em 2026 discute o nearshoring (trazer a produção para países vizinhos) e o friend-shoring (produzir em países aliados). Isso não significa que a produção deixou de ser mundializada, mas que ela está sendo reorganizada geograficamente por critérios de segurança e resiliência.
Geopolítica da Produção: Em 2026, o Brasil tenta se inserir nessas cadeias globais através da “indústria verde”. A ideia é que o processo de produção (transformar minério em aço verde, por exemplo) se localize aqui, aproveitando nossa matriz energética limpa, o que reforça que a produção é, sim, móvel e mundializada.
Conhecimento Tácito: Em 2026, reconhece-se que a tecnologia não fica apenas “guardada” nos países ricos; ela circula através da mobilidade de engenheiros e cientistas, embora a propriedade intelectual ainda gere grandes assimetrias.
Dica de Ouro para o TPS:
Se a questão disser que a produção não é mundializada, marque Errado.
O conceito-chave para o CACD é o de Cadeias Globais de Valor: o produto “nasce” em um lugar, é “alimentado” com peças de dez outros e “finalizado” em um décimo primeiro. A fábrica global é a marca do nosso tempo.
Enunciado (simulado):
“Mundializam-se os mercados, porém não os processos de produção, já que o desenvolvimento tecnológico é do domínio dos países mais industrializados.”
Analise criticamente a afirmativa, considerando a dinâmica da globalização produtiva, a divisão internacional do trabalho e o papel da inovação tecnológica no sistema econômico contemporâneo.
Resposta Modelo (nível CACD)
A afirmativa sugere uma distinção entre a mundialização dos mercados e a suposta não mundialização dos processos produtivos, atribuindo a concentração tecnológica aos países industrializados. Tal proposição apresenta elementos de veracidade histórica, mas carece de precisão analítica quando aplicada ao contexto contemporâneo da economia global.
Durante o século XX, especialmente no período fordista-industrial, os processos produtivos encontravam-se fortemente concentrados nos países centrais, notadamente Europa Ocidental, Estados Unidos e Japão. A inovação tecnológica era, de fato, monopolizada por esses polos, o que sustentava uma divisão internacional do trabalho baseada na exportação de manufaturados pelo centro e de commodities pela periferia. Nesse contexto, a afirmação possuiria elevada correção.
Contudo, a partir das últimas décadas do século XX, observa-se uma transformação estrutural com o avanço da globalização produtiva. A emergência das cadeias globais de valor fragmentou o processo de produção em múltiplas etapas distribuídas por diferentes países. Empresas transnacionais passaram a localizar fases produtivas em territórios distintos conforme vantagens comparativas específicas, como custo de mão de obra, incentivos fiscais e proximidade de mercados consumidores. Assim, a produção deixou de ser estritamente nacional e tornou-se transnacional.
Esse fenômeno demonstra que os processos produtivos também se mundializaram, ainda que de forma assimétrica. Países emergentes, como China, Índia e Coreia do Sul, passaram a desempenhar papéis centrais em setores tecnológicos e industriais, desafiando a ideia de monopólio tecnológico absoluto por parte do Norte global. A industrialização asiática evidencia que o domínio tecnológico não é estático, mas dinâmico e sujeito a políticas estatais de investimento em educação, inovação e infraestrutura.
Entretanto, a afirmação não é inteiramente equivocada. Persistem desigualdades significativas na capacidade de inovação científica e tecnológica. Os países desenvolvidos ainda concentram grande parte das patentes, centros de pesquisa e investimentos em alta tecnologia, especialmente em setores estratégicos como semicondutores, biotecnologia e inteligência artificial. Assim, embora a produção seja globalizada, o controle das etapas de maior valor agregado permanece relativamente concentrado.
A mundialização dos mercados, por sua vez, refere-se à integração do consumo e das trocas comerciais em escala planetária, impulsionada por liberalização econômica, avanços logísticos e digitalização. Esse processo é mais homogêneo do que a distribuição produtiva, pois o acesso a bens e serviços globalizados é mais amplo do que a capacidade de produzi-los tecnologicamente.
Conclui-se que a afirmativa contém uma simplificação excessiva. Os mercados e os processos produtivos ambos se mundializaram, porém em graus e formas distintas. O desenvolvimento tecnológico permanece concentrado em determinados polos, mas não é mais exclusividade absoluta dos países tradicionalmente industrializados. O sistema econômico atual caracteriza-se menos por dicotomias rígidas entre centro e periferia e mais por redes interdependentes de produção, inovação e consumo, marcadas por assimetrias, mas também por crescente multipolaridade tecnológica.
Sugestão de Revisão (Texto Refinado)
Introdução
A afirmativa proposta estabelece uma dicotomia entre a mundialização do consumo e a suposta nacionalização da produção, fundamentada no monopólio tecnológico dos países centrais. Embora o argumento capture a persistente assimetria técnica do sistema-mundo, ele se mostra anacrônico ao desconsiderar a fragmentação produtiva e a emergência de novos polos de inovação que caracterizam o capitalismo contemporâneo.
Desenvolvimento: Do Modelo Clássico à Fragmentação
Historicamente, durante o auge do regime de acumulação fordista, a produção era, de fato, integrada verticalmente e concentrada nos países desenvolvidos. A Divisão Internacional do Trabalho (DIT) clássica reservava aos países industrializados o papel de detentores da técnica e exportadores de manufaturados, enquanto a periferia provia insumos básicos.
Contudo, a Terceira Revolução Industrial e a flexibilização produtiva subverteram essa lógica. A ascensão das Cadeias Globais de Valor (CGVs) permitiu que o processo produtivo fosse atomizado: o design e a P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) podem ocorrer nos EUA, a fabricação de componentes na Coreia do Sul e a montagem final na China. Portanto, é impreciso afirmar que os processos de produção não se mundializaram; eles não apenas se mundializaram, como se tornaram a espinha dorsal da economia global.
A Nuance: Domínio Tecnológico e Valor Agregado
A afirmação acerta, porém, ao tocar no ponto da hierarquia tecnológica. Ainda que a produção física tenha se dispersado geograficamente, o comando estratégico e a apropriação das rendas tecnológicas (patentes e royalties) permanecem concentrados. Setores de fronteira — como a fronteira digital e a biotecnologia — ainda veem o “Norte Global” exercer um papel de liderança, embora agora desafiado pela multipolaridade, especialmente com o salto qualitativo da China em áreas como 5G e transição energética.
Conclusão
Em suma, a realidade contemporânea não é de ausência de mundialização produtiva, mas de uma mundialização hierarquizada. A distinção entre mercados e produção tornou-se menos nítida, uma vez que o mercado de bens finais é indissociável das redes globais de suprimentos. A análise crítica revela que a tecnologia continua sendo o principal vetor de diferenciação de poder entre as nações, mas sua distribuição é fluida, rompendo com o exclusivismo geográfico do século passado.
Ano: 2025
Banca: CEBRASPE
Prova / Fase: Prova Objetiva – 1ª Fase
Disciplina: Geografia
Tema: Geopolítica – Teoria do Heartland