CACD 2014 – Geografia – Questão 29 Item 3 – Certo ou Errado

Texto associado

A aparição das chamadas cidades mundiais e das cidades globais se explica pela necessidade de organização e controle da economia global. O termo cidade global, em sua versão mais topológica, é definido por Saskia Sassen como um território onde se exerce uma série de funções de organização e controle na economia global e nos fluxos de investimentos em escala planetária.

O. Nel.Lo e F. Muñoz. El proceso de urbanización. In.: Geografía humana, J. Romero et al (Coord.). Barcelona: Ariel, 2008, p. 321 (com adaptações).

Considerando a perspectiva conceitual de Saskia Sassen, julgue (C ou E) os itens seguintes, relativos a cidades globais.

A globalização econômica contribui para uma nova geografia da centralidade e da marginalidade, tornando as cidades globais lugares de concentração de poder econômico, ao passo que cidades que foram centros manufatureiros experimentam nítido declínio.

Resposta

Gabarito: CERTO (C)

O item é correto porque expressa uma interpretação consagrada na geografia econômica e urbana contemporânea sobre os efeitos espaciais da globalização.

Nova geografia da centralidade e marginalidade

A globalização econômica:

  • intensifica fluxos de capital, informação e serviços,

  • reorganiza o espaço produtivo,

  • cria novas hierarquias urbanas.

Isso gera centralidades globais (lugares de comando) e áreas de declínio relativo.


Cidades globais como polos de poder

O conceito de “cidade global” está associado à concentração de:

  • sedes de corporações multinacionais,

  • mercados financeiros,

  • serviços avançados (finanças, tecnologia, consultoria, direito),

  • infraestrutura informacional e logística.

Essas cidades funcionam como nós de decisão na economia mundial.


Declínio de antigos centros manufatureiros

Muitas cidades antes industriais passaram por:

  • desindustrialização,

  • perda de empregos industriais,

  • deslocamento de fábricas para regiões de menor custo,

  • necessidade de reconversão econômica.

Esse fenômeno é típico de economias que migraram de bases industriais para economias de serviços e conhecimento.


Lógica geográfica

  • Centralidade: onde se concentram comando, finanças e inovação.

  • Marginalidade/declínio relativo: onde a base produtiva tradicional perde dinamismo.


Síntese

A globalização produz concentração de poder em cidades globais e declínio relativo de antigos polos manufatureiros, configurando uma nova geografia de centralidade e marginalidade. Por isso, o item é Certo (C).

A afirmação reflete as teses de geógrafas e sociólogas como Saskia Sassen, que cunhou o termo “Cidade Global”.


Análise do Item: Centralidade vs. Marginalidade

  1. Nova Geografia da Centralidade: A globalização não espalhou o poder de forma equânime. Pelo contrário, ela o concentrou em nós estratégicos. As Cidades Globais (como Nova York, Londres, Tóquio e, em menor escala, São Paulo) funcionam como centros de comando da economia mundial. É nelas que se concentram os serviços especializados de alto valor (finanças, marketing, consultoria jurídica internacional e design).
  2. A Marginalização de Centros Manufatureiros: Com a Terceira Revolução Industrial, a produção fabril física tornou-se “descartável” em termos de localização. Fábricas migraram para países com custos menores, levando cidades que eram potências industriais tradicionais (o clássico exemplo de Detroit nos EUA, ou partes do ABC Paulista no Brasil) a experimentarem processos de desindustrialização e declínio econômico.
  3. Dualidade Espacial: A globalização cria, simultaneamente, conexão (para as cidades globais inseridas no fluxo) e exclusão (para regiões que não conseguem se adaptar à economia de serviços e tecnologia).

A Perspectiva de 2026: Cidades Globais e Soberania de Dados

Em 2026, essa dinâmica de centralidade e declínio ganhou novos contornos tecnológicos:

  • O Renascimento pelo “Tech”: Em 2026, algumas antigas cidades manufatureiras conseguiram frear o declínio transformando seus parques industriais em “hubs” de tecnologia e inovação (gentrificação tecnológica). Aquelas que não conseguiram atrair a economia digital de 2026 enfrentam crises sociais profundas.
  • Cidades Globais Digitais: A centralidade em 2026 não é apenas financeira, mas de dados. Cidades que abrigam os grandes datacenters e as sedes das empresas de Inteligência Artificial tornaram-se as novas capitais do poder.
  • O Caso de São Paulo: No cenário brasileiro de 2026, São Paulo reafirma sua condição de cidade global ao se tornar o principal centro de serviços ambientais e finanças verdes da América Latina, enquanto cidades do interior que dependiam de indústrias tradicionais buscam novos modelos de desenvolvimento para evitar a marginalidade mencionada na questão.

Dica de Ouro para o TPS:

  • Cidades Globais ≠ Grandes Metrópoles: Uma cidade pode ser enorme em população (como Lagos ou Jacarta), mas não ser uma “Cidade Global” se não tiver poder de comando e serviços de ponta na rede mundial.
  • Desindustrialização: Lembre-se que o declínio manufatureiro não significa o fim da indústria, mas sua migração para a periferia, enquanto o lucro e o comando permanecem nas cidades centrais.

Enunciado (simulado):

A globalização econômica contribui para uma nova geografia da centralidade e da marginalidade, tornando as cidades globais lugares de concentração de poder econômico, ao passo que cidades que foram centros manufatureiros experimentam nítido declínio.

Analise criticamente a assertiva.


Resposta Modelo (nível CACD)

A assertiva está correta ao apontar que a globalização econômica produz uma reconfiguração espacial das atividades produtivas e financeiras, gerando novas formas de centralidade e marginalidade no sistema urbano mundial. Esse fenômeno está associado à transição do modelo industrial fordista para uma economia baseada em serviços avançados, finanças e fluxos informacionais, processo intensificado a partir do final do século XX.

O conceito de cidades globais, desenvolvido por Saskia Sassen, descreve centros urbanos que concentram funções estratégicas de comando da economia mundial, tais como mercados financeiros, sedes corporativas, serviços jurídicos internacionais, tecnologia e produção de informação. Nessas cidades, o poder econômico não se vincula apenas à produção material, mas sobretudo à capacidade de coordenar redes transnacionais de capital e conhecimento. Exemplos frequentemente citados incluem Nova York, Londres e Tóquio, que se tornaram nós centrais da economia globalizada.

Paralelamente, a globalização implicou a desconcentração da produção industrial tradicional. Muitas cidades que prosperaram durante o auge do modelo manufatureiro sofreram processos de desindustrialização, perda de empregos e declínio urbano. Esse fenômeno, observado em regiões como o chamado “cinturão da ferrugem” nos Estados Unidos e em áreas industriais da Europa Ocidental, evidencia a transferência de fábricas para países com menores custos de produção e maior flexibilidade regulatória.

Essa transformação gera uma nova geografia de desigualdades. Enquanto cidades globais acumulam riqueza, infraestrutura e capital humano altamente qualificado, outras áreas urbanas enfrentam retração econômica e dificuldades de reinserção produtiva. A centralidade passa a ser definida não apenas pela capacidade industrial, mas pelo domínio de fluxos financeiros, tecnológicos e informacionais, o que amplia a distância entre polos dinâmicos e regiões periféricas.

Do ponto de vista social, essa reconfiguração também acarreta tensões internas nas próprias cidades globais, que combinam concentração de riqueza com acentuada desigualdade socioespacial. Assim, a globalização não elimina a marginalidade, mas a reorganiza em novas escalas e territórios.

Conclui-se que a afirmativa é correta ao reconhecer que a globalização econômica produz simultaneamente concentração de poder em determinados centros urbanos e declínio relativo de antigos polos manufatureiros. Tal dinâmica evidencia a mutação estrutural do capitalismo contemporâneo e sua expressão espacial na hierarquização das cidades dentro do sistema mundial.

Ano: 2025
Banca: CEBRASPE
Prova / Fase: Prova Objetiva – 1ª Fase
Disciplina: Geografia
Tema: Geopolítica – Teoria do Heartland